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O Quati

  • Foto do escritor: B.Bravo
    B.Bravo
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 1 dia

Nada não. Barulheira aquela é deveras ocorrida, mas não foi briga de gente. Fato certo é que se captou criatura que alvoroçava vizinhança inteira, animal de mato escapado pra cidade. 


De princípio não se sabia qual fosse: raposa, gambá, sarigué, ou se gato mesmo, mais provido de carne e substância. Depois se determinou o quati, viçoso, grandalhão, mas tinhoso, caracterizado de fragrância duvidosa.


Esteve por aí transtornando vida alheia dos outros: desterrou plantação no quintal meu. Pras bandas de lá, eis que se atracou em conflito com gata de estima da Solange. Diz que a bichana desde o advento não põe mais focinho pra fora de casa. Depois da rinha, ainda ficou com unha do bicho incrustrada no sovaco. A ferida acabou consolidando e assim ficou. Deu ela pra miar em tom menor agora, e passou a observar a vista com desconfiança, e não flerta mais olhar de gente. Todavia, tem ainda seis vidas mais que a uma única perdida pelo periquito do Dirceu, da terceira casa.


Foi quando a gente se deu que não era animal ordinário, esse um quati. Era de qualidade outra descomum. Ou a senhora já noticiou que quati come periquito? Pois comeu. O filho Ângelo dele, do Dirceu, indignou; em luto por ocasião do periquito, que tinha nome Djavan. Diligenciou envenenamento para modo de liquidar o silvestre, com bife selado em estricnina. Mas deu ruim resultado, com afetação do cachorrinho deles, buldogue batizado Caetano. Morria o periquito, morreu o cachorro. Coitado, o Dirceu.


Mas a despeito de ontem, o que se deu foi a captura. Foi a ocasião pra se notar que as artimanhas desse o quati não igualizam com o de costume. Verdade se reconheça que quati não é ser vivo de viver em cidade, distante longe da mata; entre tantos esse aqui era: a besta.


Era de tarde quando sorrateirou pelo quintal. Quem armou armadilha foi a Shirley, da direita vizinha, usando carne de isca. Pois que o bicho veio quatinando pelo muro até a horta. Essa horta mesma que ele cavucava toda noite atrás de minhoca e verme, desplantando a plantação de verdura que já não prestava, porque ali fazia sua sujeira, cagada. Não se come isso depois, como?


Pois que vindo na mira do minhon, entrou direto fundo na armação, logrando o embuste. A gente também tem suas artimanhas nossas.


Quati com a mão no bife,  o rabo já sente a gaiola fechada. Era grande esse um! E se enfezou, então, a fera. Contorcia e retorcia na jaula, redemoia entre as grades, e rosnava e rodava e roncava. Tem nariz de porco, o quati. E máscara de cachorro, que-diga! Mas transfigurou arrepiado, de distanciar qualquer um que promovesse. 


Comocionou a vizinhança à hora. Veio Viviane, Zé Pedro e Bianca pra ver, mas não se aproxegava mesmo ninguém mais perto. Não deduzo se por medo, asco ou receio de se encantar. E fedia.


Se ligou pra polícia e bombeiro e ninguém teve a coragem. Só a Shirley.


Com ajuda do Benedito, içaram o alçapão com pau e rodo e vassoura. De longe se escutava o cheiro e os grunhidos, vieram todos ver e assistir, sem mais envolvimento. Foi quando se aquietou o quati, e ali eu vi feitiço no olhar do animal. Era tudo tensão, e ele interpretava. Aquilo não era deste mundo. Deus esteja.


Se carregou a criatura enjaulada como trofeu. Na rua houve quem parasse para assuntar a feita. Partiram os três pra despacho na margem do rio, onde se soltou e sumiu longe veloz o quati, feito lebre.


Aí se aquietaram as horas e os minutos. De noite ainda me peguei olhando pela janela, averiguando se ele se tornava a retornar. Mas não. Só silêncio e o sorrateiro deslocar do vagão.


 
 
 

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