Partidas
- B.Bravo

- há 2 dias
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Atualizado: há 1 dia

Já se contavam dezenove anos desde o desaparecimento do Cecílio. Ficou a filha e ficou a esposa, Solange, que toda noite se via sentada no alpendre em espera de retorno que nunca houvesse. Dezenove noites ela viu o vagão - esse mesmo parado aí na linha - partir e retornar sem que se percebesse sinal do marido, pois que ele vai e volta sem dia certo para ir ou tornar - o trem.
Saudade como a da mãe a filha Juliana não teve. Cresceu tendo o avô como pai. E o Juca criou mesmo como filha. E ela nunca percebeu falta do Cecílio pois que ele partiu com ela ainda sem palavras. Até que faleceu o Juca.
E essa perda Juliana sentiu. O choro se ouviu todos ouvidos daqui, tendo encontrado o avô morto sobre o cavalo em galope. Havia partido ao trabalho na roça do Zaqueu e não tornara na hora costumeira do café. Até que tornou o cavalo com Juca em sela. Foi transtorno pois que o pangaré não desacelerava, e passou a fazer contorno pela praça, sem cessamento. A comunidade assistiu e orou.
Foi quando o Zaqueu idealizou de mobilizar o Boi Benevides para a empreita. Posicionou-se o Benevides na porta da igreja, fazendo parar o cavalo com olhar profundo. Era puro segredo esse enxergamento do Benevides. Assim se pôde descer o Juca, que foi sepultado com as rédeas em punho, pois que nunca soltou.
O sofrimento abateu Juliana, que naquele momento fez lamento de realização concomitante da morte do avô e abandono do pai. Há quem visse as lágrimas escorrendo da casa até o córrego, sete dias e sete noites, num choro baixo mas que ensurdava qualquer outro.
O estranhar é que de fato coisa mágica sucedesse. Pois que um dia, seguindo o caminho de lágrimas que corria até o córrego, Juliana se deparou com o vagão abandonado na linha do trem. Foi quando ela cogitou de entrar. Juliana perseguiu até o assento de número 19 que era idade sua.
Mistério então agravou. O que eu soube foi que Juliana sentou ali no banco de passageiro e viu que no assento da frente havia um embornal. Curiosamente sendo, abriu. E localizou. Dentro, calhamaço de envelopes de carta, tendo como destinatária ela Juliana Isidoro dos Santos. O remetente: Cecílio, seu pai.
As cartas datavam uma para cada ano, em data do aniversário de Juliana. Mas essa tinha 19, e as cartas somavam 67. O significado disso nunca se soubesse. Porém o que se dizia nos papiros era a revelação: pois que Cecílio jurava suspeita de que não era verdadeiro pai de Juliana, justificando o abandono.
Já sentada ali, leu. E nunca mais tornou. Não falou mais com pessoa alguma. Até que uma noite incerta partiu o trem com Juliana e as cartas. Solange talvez ainda tenha acenado em adeus, sabendo que não voltasse. Quando tornou o carro de passageiros, Juliana não houve; só as cartas...
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