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A imbigueira

  • Foto do escritor: B.Bravo
    B.Bravo
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Do lado de lá da linha a gente vai pouco. Mira lá embaixo: percebe aquelas duas casas geminadas, que são quatro? Moram ali quatro irmãos iguais, que hoje somam 444 anos, acumulando os 111 de cada um, pois que nasceram em mesmo dia, no Maniúma. Eles e os outros 36. 


A estória deles que se conta é que vieram do Maniúma, um lugarejo a duas estações daqui. As estações já nem há mais; Maniúma não sei. Pois que quem pra lá tenha ido nunca voltara. Mas os quatro vieram, inda miúdos, só os Eles.


É que se diz de maldição pairada no lugar. Ou milagre mágico fantástico. Se saiba. Fato é que nunca ninguém havia nascido naquele chão, só nos arredores. Até que o dia. E esse único não vingou. Nasceu e morreu sem medeios.


A mãe desse único nascido era a dona do bar: vendia bebida, pouca comida e alguns outros divertimentos, se você me entende. Divertimentos para homens alheios. Me estranha ainda que isso funcionasse em lugar tão pequeno. Mas se ia. Até que ela embarrigou, nunca se soube de quem. E o verbo se fez história. 


Assim foi dela o primeiro a nascer em terras de lá. Parto em solo feito pela mãe, sem auxiliamentos. E o pequeno nasceu cantando; lugar inteiro apreciou o ouvido. Mas morreu em seguida, semanas depois, sem atenção da comunidade, que olhava diagonada para mãe e para o filho. 


Sepultamento se fez só com eles dois, não havendo pai que assumisse, em cemitério distante. Mas o imbigo ela guardou. Costume é que se cura imbigo com cachaça, para secar adequado. Foi o que ela fez. Aquela tripa então murcha, seca, cai e muito até se guarda em recordação material. Mas mulher cavou no terreiro e semeou ali a libra de pele permanecente do filho perdido. Aí sucedeu.


Ninguém cogitou aquela árvore crescendo mais rápido e dissemelhante do costumeiro. Entretantas ergueu galhosa tal qual uma jabuticabeira, similar mas diferente: galho em pele. Aí começaram a apontar os brotos, o que se notou. Quando entrou setembro, o arbusto se encheu: fiorofrutou plena, e o bendito fruto era mesmo um imbigo - imbigo deveras, igual de gente. 


Foram quarenta. E brevemente se viu cada imbigo formando-se criança. Até ser fato notório aquela moita de nenem pendurado… e numa certa madrugada, às três horas, os quarenta cantaram em coro. O acorde despertou meio mundo; e se percebeu a harmonia até aqui, é o que dizem. 


Mas nem tudo é poesia. O povo apavorava, mas blaseava indiferença. Todavia os meninos foram crescendo, sem quem com eles falasse, brincasse ou ralhasse. 


Aí a piorança: aos poucos se impressionou que eles plagiavam as feições: filhos de peixes... Aqueles uns que não tinham certidão de pai - cada qual encarnou o semblante de um citadino da localidade. Igual que nem, quarenta fiéis cuspidos e escancarados, o que vingou alvoroço em famílias muitas do lugar. Pois que cada um marido foi novamente parido da imbigueira.


E crescia cada menino se aprimorando idêntico a um paterno. Aliasmente, não foram os meninos todos divergentes entre sis: quatro facearam a mesma outra cara: que era a uma do coronel Cesáreo, que era dono do tudo em volta.  


Sem filosofias, expulsaram um a um. Aquilo lá sembrava almadiçoamento. A imbigueira, diz que derrubaram. E a cada machadada era sangue que minava no tronco… Foi o que eu ouvi. 


Os quatro esses que mimetizaram o coronel locaz vieram aproxegar do lado de lá da linha. Não alimentamos muito vizinhamento nós com eles; o que hoje é perto ontem era viagem. Então não se intimidamos muito com os quatros: eles lá, cá nós.


Maniúma acabou. Ninguém mais nasceu nem viveu ali. Já esses uns e os trinta e seis irmãos estão com cento e onze anos cada, como se quarenta tivessem, sem provimento de conclusão. 


 
 
 

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